THEATRO SÃO PEDRO

Em 15 de novembro de 2011, para coroar o trabalho do projeto de música ASCARTE/IEI (Associação Pró Cultura e Arte Ivoti/Instituto de Educação Ivoti), o grupo de Violinos, Violas, Cellos, Coro Juvenil e Camerata Ivoti subiam ao palco do Theatro São Pedro, em Porto Alegre, com um variado repertório, incluindo o programa da Turnê Europeia 2012. A instituição havia pisado neste palco uma única vez, em 1959.

O reconhecimento e a sensibilização do público que aprecia os Concertos da Camerata Ivoti fazem brotar, além da mais profunda e sincera alegria pessoal de cada um de seus integrantes, a motivação e o entusiasmo para continuar a levar, para onde for possível, a música e sua inegável função social como arte funcional, inclusiva e de imensurável caráter formativo. No dia 08 de janeiro de 2012, para a grata satisfação da Família Camerata, o jornal Zero Hora publicava um texto do jornalista e escritor Flávio Tavares, que expressa a sua comoção e admiração ao assistir o programa da TVE com o Concerto no Theatro São Pedro, que foi ao ar no dia 01 de janeiro de 2012.

As flores de Ivoti

       Revivi as alegrias de menino e refiz as esperanças de adulto ao assistir pela televisão ao concerto da Camerata de Ivoti no Theatro São Pedro, no primeiro dia do ano. Durante mais de duas horas, extasiei-me com aqueles meninos e meninas interpretando Bach, Piazzolla, Pixinguinha, o folclore brasileiro ou alemão e inclusive os Beatles, com uma seriedade tão terna, pura e profunda, que compensa, até, os tortuosos caminhos em que se enreda hoje outra parte de nossa juventude. A apresentação original ocorreu em novembro de 2011 e, agora, a TV a levou ao grande público.
      Daqui a uns dias, as gurias e guris da Camerata de Ivoti viajarão para a Europa, para apresentar-se em Oslo, capital da Noruega, e depois em cidades da Alemanha, Berlim inclusive. Lá, não terão dificuldade em explicar que vêm de um lugar cujo nome tupi-guarani significa “flores úmidas”. Basta vê-los e ouvi-los. Alguns deles têm apenas sete anos e os mais velhos não passam dos 18 ou 20. Aos violinos, violas e violoncelos, interpretam sem partituras, guiados pelos regentes adultos, que também tocam de memória.
       Em termos musicais, isto é admirável. A façanha maior, porém, é que venham de um pequeno município rural e agrícola, com apenas 70 quilômetros quadrados, e que a Associação Pró Cultura e Arte de Ivoti, nascida no seio da liturgia germânica da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, abrigue crianças, jovens e adultos de diferentes etnias e religiões.
       A música é enlevo, nunca discriminação. Na balbúrdia do quotidiano, a Camerata de Ivoti é ilha tranquila em meio à competição desenfreada da sociedade de consumo. Seus membros reproduzem o conjunto da população. Os loiros, descendentes de alemães, são maioria, mas nos violinos há guris e gurias “nissei” ou “sansei”, de pais ou avós japoneses. E, no coral, uma menina negra (com enormes brincos africanos) canta em alemão… mit Worten oder mit Werken”, numa exaltação ao lema luterano de tudo fazer “com palavras e com obras”.
       Terei me emocionado por isto? Nasci e me criei na colônia alemã, zona de pequena propriedade, em que todos eram “socialmente iguais” ao frequentarem a Turnverein Jahn, ou Sociedade Ginástica. Patrões e empregados iam ao mesmo Turnhalle, o salão de jogos. Em casa ou na rua, dois idiomas (alemão e português), mas a única diferença era religiosa – católico ou luterano–, fruto da intolerância que o papa João XXIII suprimiu no Concílio Vaticano II.
       Briga feia era quando moça católica namorasse luterano, ou vice-versa! Os descendentes germânicos preferiam casar-se entre si, mas admitiam “luso” ou “italiano” na família, sempre que não fosse “Schwarz”, moreno de pele…
       Em Porto Alegre, concentradora da economia mercantil de trocas e da indústria, já era diferente. Havia clubes para pobres ou ricos. Moça do 4º Distrito (Navegantes e São João) era sempre “alemoa”. E “alemãs”, só as bem aquinhoadas da Floresta ou Moinhos de Vento…
       A Camerata de Ivoti, criada no modelo luterano e germânico, mostra como é possível unir e construir quando existe a lucidez de entender o próximo e não discriminar.
 

O THEATRO SÃO PEDRO

Uma referência cultural no sul do Brasil, por onde passam artistas de renome internacional. Há mais de cem anos acolhendo todo tipo de arte e divulgando artistas e seus trabalhos, atualmente é mantido e administrado pela Fundação Theatro São Pedro. Desde 1985 conta com uma Orquestra de Câmara.

 
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